quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL A TODOS OS AMIGOS DO BLOG


Há um ano passamos juntos o Natal em Luanda. Hoje, com cada um separado num ponto do mundo - eu moro numa cidade linda chamada Natal, vejam só -, resta dizer: Felicidades, paz, saúde e prosperidade pela passagem do Natal e no ano de 2010.

Que o "Pai Natal" (Papai Noel aqui) traga tudo de bom que você deseja. acima, meu cartão de Natal pessoal - e finalmente o meu nome verdadeiro no rol do blog: um presente para muitos curisosos!
X.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Vida dos Angolanos Ricos em Portugal


A revista portuguesa Visão (com data de capa de 10 a 16 de dezembro) trouxe uma longa reportagem sobre o que compram, o que fazem e os locais que os angolanos ricos frequentam em Portugal.

Gente que compra relógio de 900 mil euros. Outros que embarcam Mercedes de 300 mil euros em aviões para não ter que esperar uma semana pela viagem de navio entre Lisboa e Luanda. E, claro, o avanço dos esteticistas de luxo que cobram fortunas por uma chapinha japonesa ou um aplique de cabelo?

O que eu acho disso tudo? Que o jornalismo da Visão é fabuloso ao abordar um tema desse com tanta seriedade - e os infográficos que explicam tudo são muito bem feitos. Mas o fosso social entre os gastos estaparfúdios e a realidade que conhecemos das ruas de Luanda é mais abissal do que possa imagina nossa vã sanidade.

Valapena ler. Dica da Ju, sempre antenada com as coisas da terrinha saudosa.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Blog não parou, leitores!

Se calhar, pode ser uma justificativa o corre-corre típico de fim de ano, o ciclo festivo, os cabazes de Natal, o Pai Natal a chegar, o sobe-e-desce, mas enfim, teremos histórias boas para contar em breve aqui.

Houve uma reunião de condomínio na semana passada, nomeadamente na casa de Ju, com presenças de Candongueiro, Branquela e X. Em seguida, para inveja eterna de Menina de Angola, folgamos e fizemos um brinde em grande na Brigadeiro da Padre Carvalho.

É aguardar.
Calma nos corre-corres

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A seleção Pentacampeã do Mundo já está pronta! Que venham Portugal e Costa do Marfim


E agora? O Brasil ficou no mesmo grupo de Portugal para a Copa da África do Sul. Para piorar, a Costa do Marfim, também...
Por quem os angolanos torcerão? Ai, ai, ai...
Nem precisa dizer que vai ganhar a Copa 2010, não é?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Elinga não se rende...e programa final de semana em grande

Toda a gente que lê este blog sabe do meu amor pelo Elinga Teatro. Ah, aí, de certeza, acontecem as melhores festas de Luanda. Foi lá que conheci as pessoas mais bacanas e adoráveis da noite luandense. Para quem está na cidade neste final de semana, olha como a agenda está repleta de coisas boas. Se eu fosse você, ia.


Aí está o mítico Bar Elinga reincidindo com as suas fabulosas noites apresentando este fim de semana um programa a não perder! O destaque para esta semana vai todo para o Regresso de Eduardo Paím, um dos monstros sagrados da musica Angolana Sábado dia 5 de Dezembro que actuará ao vivo num concerto intimista inédito no Elinga, seguido da Festa Tropical Clash com Kizomba, Zouk e outros ritmos tropicais! No Domingo o destaque vai todo para o Hip-Hop com o seu Movimento Urbano.


Quinta, Thursday 03.12.09
Chokolate Quente
Djing – Afrologic Brothers e amigos – 22h30 (entrada livre)
FUNK, DISCO, SOUL, HIP HOP, DEEP AND SOULFUL, BROKEN BEAT & DERIVADOS
Continuando com o projecto Chokolate Quente, aí estarão Tuka aka DJ Soulbreaxtra (www.myspace.com/tukathesoulbreakxtra), e Coca aka Farai Sem Mobile (www.myspace.com/cocafaray) para esta Quinta-feira.... O start-up para um fim de semana que se espera escaldante....! Are you ready for the good vibes??? :-D

Sexta, Friday 04.12.09
Flu (Full) Party – from A to Z
Djing - Ana Fabrizia & DJ Leandro Silva – 22h30 – 1.000 kwanzas (inclui uma bebida)
JAZZ, SOUL, R’N’B, NU-JAZZ, DEEP HOUSE & HOUSE
Para a tão esperada Sexta-feira do Elinga e para a primeira Flu (Full) Party de Angola, estará de regresso aos decks do Elinga a DJ Ana Fabrizia para brindar os ouvintes com os seus sets sempre cheios de qualidade. Pela noite dentro estará o residente DJ Leandro Silva (www.myspace.com/leandrosilvadj), que irá viajar pelas diferentes estirpes de virus influenza musicais de A a Z, não deixando ninguém indiferente... Nada melhor para exorcisar a semana... :-DD

Domingo, Saturday 06.12.09
Movimento Urbano – Rewind!
HIP-HOP, SOUL , R&B
Artistas – Mck, Cfk, X da questão, Mona Kid, Pensologo, Lil Jorge, Muralha, Sam Caleia, Edu Zp, Cool Klever – a partir das 18h30 – 1.000 Kwanzas (destaque)Depois de alguns problemas logisticos no fim de semana passado, fazemos um Rewind para o arranque do projecto cultural “Movimento Urbano”, que tem como objectivos a divulgação imparcial e mais abrangente deste movimento sociocultural, que atrai milhares de jovens pelo mundo inteiro, sua força e importância entre os seus praticantes, encaminhado-os desta forma para os caminhos da música, dança, arte e auto-conhecimento. Neste evento contaremos com a participação de alguns dos integrantes do já conhecido “Ecletismo Poético” (evento semanal relizado no espaço Bahia), assim como actuações ao vivo de convidados especiais, demonstrações de Graffiti, actuações de dança (B-Boys), contando com a presença com um dos mais reputados DJ´s live, e MC´s de Angola. Um evento a arrancar às 18h30 prolongando-se até cerca das 1h 00 da manhã! :-D

Ao lado do edificio do BPC - Entrada livre à Quinta Feira!
Sem lista de convidados! Sem engarrafamentos e multidões! Acesso rápido ao bar! Bebida de origem garantida! Nova Gestão!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Reflexões anônimas sobre o Cocan 2010






Recebi este belo texto por email do Kota Baião. Resolvi compartilhar com os leitores da Casa. Uma bela reflexão. O Brasil, que vai sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, vive o mesmo dilema: vestir-se de luxo, tendo antes de resolver problemas básicos, muitos dos mesmos do lado de lá e de cá.


Mama, será que estamos preparados para o CAN??


Mama, será que estamos mesmo preparados para essa grande festa que os meus irmãos mais velhos que te governam estão a organizar?? Será que ela é mesmo necessária??

Desculpa mama, mas não consigo reagir com entusiasmo a essa idéia, porque quando olho à minha volta, vejo que ainda temos muito que arrumar aqui em casa.

Não consigo parar de pensar que os meus irmãos gastaram tanto dinheiro a construir 4 estádios em tão pouco tempo e aquela universidade grande, com dormitórios e tudo, que eles nos prometeram (há quantos anos mesmo??) simplesmente ainda não acabou...

A quem queremos impressionar mãe? Talvez eu é que não esteja a perceber muito bem e por isso me questiono tanto... E se de facto queremos impressionar, não é melhor impressionarmos com idéias do que com “fintas”? Ou impressionar o mundo com aquela menina que cresceu em meio a tantas dificuldades mas que mesmo assim é uma estudante brilhante, do que com aquela que é especial só porque é bonita? Não é melhor impressionar com o que é inteligente do que com o que é bonito ou divertido? Afinal, qual é a nossa prioridade mama? Impressionar ou trabalhar?

Como é que achas nós, teus filhos menos favorecidos na distribuição do leite das tuas grandes e fartas “tetas” nos sentimos diante de um evento como esse, sabendo que tanta coisa podia ser feita não só com o dinheiro, mas com o tempo e com pessoas que se têm dedicado a esse evento de 10 dias de simples diversão?

Será que devemos mesmo estar entusiasmados, sorridentes e orgulhosos, quando simplesmente não temos qualidade de vida? Mama, posso garantir-te que nenhum dos teus filhos hoje tem qualidade de vida, nem mesmo aqueles à quem deste as rédeas da nossa casa, porque acredito que mesmo eles, que por trás dos muros têm o necessário e o desnecessário, não gozam da qualidade de vida que é proporcionada por uma consciência tranquila, pelo sentimento de dever cumprido, pela alegria no rosto dos que os rodeiam, isso para não mencionar, as longas horas no transito, as ruas esburacadas onde quer que se vá, a desorganização e a certeza de que por mais que se esforcem ou se esfolem a tentar mascarar a verdade o país está a piorar.

Como é que nós, teus filhos, vamos receber as visitas se, para as que aqui estão, olhamos com desconfiança porque a todo momento sentimo-nos ameaçados, tendo em conta que o Chinês, nos tira a oportunidade de aprender ofícios básicos como a pedreira e o Português, o Brasileiro e outros bem... esses simplesmente não nos dão oportunidade, porque trazem “tudo” de lá. Mas será que a culpa é deles? O correcto não seria eles virem por um período, aprendermos com eles e depois de bem aprendido fazermos nós próprios? Mas aqui nesta casa, quem está preocupado com o correcto se o incorrecto também funciona?

Mama, os lugares principais da nossa enorme casa, tal como ruas, praças e avenidas estão a ser bem arranjados, isso é importante porque impressionar implica, quase sempre tapar o sol com a peneira. Mas quase sempre eu me pergunto: e se por acaso o turista, ao sair do Aeroporto tiver que evitar a 21 de Janeiro e for forçado a passar pelo Cassenda, pelo Mártires do Quifangondo ou ainda pelo Cassequel, como é que vai ser? O que vai pensar de nós esse turista que vai assistir os jogos em estádios de dar inveja a países desenvolvidos de tão majestosos? Será que sentir-se-á impressionado?

Alguns filhos teus, podem dizer-me que não estamos a organizar o CAN para impressionar, mas sim para o nosso próprio beneficio. Garanto-te que quase no mesmo instante outros filhos teus, os irmãos que estão do meu lado, vão apresentar uma lista sem fim de ideias, eventos e instituições que precisam de ser organizadas para o nosso próprio benefício e que são tragicamente prioritárias.

Mama, sinceramente não quero odiar a ti, a nossa casa, ou aos meus irmãos a quem incumbiste a nobre tarefa de nos dirigir e não vou fazer mesmo porque não me cabe odiar pessoas mas sim condutas, mas digo-te, eu sou dos teus filhos mais pacíficos porque outros de tão descontentes, já falam do impensável, que é uma guerra civil. Já pensaste mama? Outra guerra entre nós? E essa talvez seria pior, porque os descontentes estão tão próximos dos “contentes” que se calhar nem precisem de se esforçar muito para vandalizar.

Ai mãe... Gostaria mesmo de estar saltitante de entusiasmo porque uma festa é sempre uma festa e quanto maior melhor, mas sinceramente estou ocupada a descobrir se o meu interesse pelos estudos é que está a diminuir ou se a instituição em que estudo é que está cada vez mais degradante!


Não sou contra o CAN, mas contra o facto de ter se tornado uma prioridade.

Autor desconhecido

05 de Outubro de 2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Caras Angola faz cinco anos


Foi uma das portas de entrada deste datilógrafo - e de muitos expatriados, que tem vergonha de admitir, mas adora ler revitas desse tipo - no entendimento da sociedade angolana. Adorava comprar o exemplar na sexta-feira, seja dos moleques que vendiam nas ruas ou na Africana, ali no Café 3 em 1, da António Barroso. Trouxe muitos exemplares de Caras Angola para o Brasil, na tentativa de perpertuar a imagem dessa sociedade de tantos contrastes, mas nem por isso menos fulgurante.


O texto abaixo foi divulgado pela organização da festa. Parabéns pelos 5 anos. Nós bem sabemos como é difícil uma revista atingir essa idade. Li a notícia no blog da querida Hilcélia Falcão.


Por falar em revitas, não custa reler o post com tudo ao pormenor sobre a gala da Chocolate, há um ano já!

A Revista Caras comemora o seu 5º aniversário com uma festa no Futungo de Belas, a 28 de Novembro do corrente ano.A intenção desta publicação é de celebrar os seus 5 anos de existência, associando às comemorações o sentido de reponsabilidade social que caracteriza a CARAS, isto e’, ajudando as crianças do Lar Umwenho-Ukola do Huambo.

Para esta festa, o tema escolhido foi “500 fabulosos”. Convidamos todos os nossos leitores a serem um dos “500 Fabulosos”. Fabulosos por ajudarem-nos a ajudar o Lar Omwenho Ukola no Huambo, ao mesmo tempo que se divertem num evento que promete ficar na memória de todos.

A grande supresa deste ano, e que pretende marcar o 5ºaniversário, será um sorteio de grandes prémios (em forma de rifas) para os convidados que se associarem a esta comemoração. Esta é uma maneira simbólica de demonstrarmos que ajudando os outros, temos mais probabilidades de receber algo de bom.

Para além de divulgar o Lar Omwenho Ukola, no dia do evento esperamos poder fazer a doação de um cheque a esta instituição, que alberga hoje em dia cerca de 28 meninas orfãs. O Lar é administrado pela irmã Ana Maria e está localizado na provincia do Huambo.

Sobre Caras Angola

A Caras é uma revista semanal que retrata a vida da sociedade angolana e o panorama social internacional. Próxima do leitor, convida-o a compartilhar a vida e os feitos das celebridades e da elite internacional, sendo por isso uma revista aspiracional.

Caras. No mínimo, irresistível.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Nota triste, unindo Brasil e Angola

No último sábado, um rapaz de 30 anos morreu de gripe suína na cidade-capital onde vivo. Oficialmente, já é a sétima morte este ano pela H1N1, um vírus arrasador que vitima o indivíduo em questão de dias.

Pois então: o mais dramático dessa nota triste é que o pai do rapaz trabalha em Angola e a família estava esperando-o chegar para realizar o "óbito". Imagine o drama de quem precisa deixar as pressas o país, com passagens tão difícies, em vôos tão lotados, como esse pai.

E mais dramático: nem Brasil nem Angola estão preparados para enfrentar essa nova gripe. Definitivamente não estão.

Em setembo, a Menina de Angola já relatava onze casos confirmados, aqui.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Tereza Salgueiro apresenta "Matriz" em Luanda


A 21 e 22 de Novembro de 2009, Luanda vai poder assistir a dois espectáculos de Tereza Salgueiro e a Lusitânia Ensamble no Cine Tivoli. Tereza Salgueiro vem apresentar o seu último trabalho "Matriz".

Bilhetes à venda na Mundo Produções e no Bazar da LAC
Informações e reservas: 921 548 469 ou 222 430 928

A corrupção no Mundo

A Organização Não Governamental Transparência Internacional divulgou hoje o Ranking da Transparência, que mede o Índice de Percepção da Corrupção no Mundo. A lista é montada a partir de 13 pesquisas distintas sobre corrupção realizadas por organismos internacionais como o Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial e a Freedom House.

O Brasil aparece em 75o lugar, com nota 3,7, ligeiramente melhor que a China, com nota 3,6. Angola divide a 162a posição com Congo (Brazzaville), República Democrática do Congo, Guiné-Bissau, Quirguistão e Venezuela, todos com nota 1,9.

Entre as outras ex-colônias portuguesas, Moçambique está na 130a posição (nota 2,5) e Cabo Verde é melhor colocada, no 46o lugar (nota 5,1). Nossa ex-metrópole saiu-se um pouquinho melhor - 35o lugar, nota 5,8.

A lista tem 180 países pesquisados que recebem pontuação de 0 a 10. Quanto maior a nota, menor a percepção de corrupção. Os países com índice abaixo dos 5 pontos, segundo a ONG, são "altamente corruptos".



terça-feira, 17 de novembro de 2009

Agora, meus caros, ninguém nos segura


Capa da última edição da revista The Economist - para muitos, uma verdadeira bíblia. Lembrar que esse belo monumento ficou apagado por mais de duas horas há oito dias. Jornalista odeia quando a realidade insiste em sem meter nas nossas "verdades". Takes off totally!

Viva as Repúblicas do Brasil e de Angola



Era novembro e vivíamos, na mesma semana, os feriados de 11 e 15 de Novembro, proclamações das repúblicas de Angola e do Brasil, respectivamente.

Há semanas, a Ju tinha uma idéia fixa de fazemos uma "épi áuár", como toda a gente costuma pronunciar "répi auár" do lado de lá do mar, com todos os nossos amigos de trabalho.

Até então, ninguém nunca tinha deixado a redação tão cedo e ido para o bar (resumo da happy hour) e fizemos aquilo naquele dia, só então dando-se conta da importância das duas datas para as duas nações.

Pois bem: o local escolhido foi o Veneza, restaurante famoso pelo bacalhau servido geralmente frio nas vezes em que lá estive e uma decoração de deixar corada até a mais cafona das africâner.

O ocupamos uma longa mesa, pedimos dezenas de Cucas, várias caixas de sumo, uns pica-paus, um cachocho frito e lá fomos desfiando histórias em torno dos dois eventos.

Súbito, alguém tem a idéia de cantar o hino nacional de Angola. De pronto, o restaurante para para ver aquele evento. Em seguida, as gargantas brasileiras se ufanam e passam a explicar, em alto de bom tom o que é o lábaro estrelado ou como ouviram do Ipiranga às margens plácidas.

Uns comensais riam à socapa daquelas demonstrações de patriotismo, mas não estávamos nem aí. Só queríamos expressar nosso orgulho pelo 11 e o 15 de Novembro, datas de proclamação de duas Repúblicas que, há 120 anos (no caso do Brasil) e a 34 (no cado de Angola) tentam acertar na vida, apesar dos pesares, e são irmãs de sangue e luta.

Mesmo atrasado, pelos afazeres da nova lida, parabéns pelas datas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

E o Brasil apagou-se nesta terça-feira


Como toda Angola já sabe "nessa altura", tivemos um apagão de duas horas ontem no Brasil que afetou nada menos do que 800 cidades, deixou muita gente presa em elevadores, provocou batidas de carros, assalto e morte em SP e muita, muita indignação de quem vive no país com o maior volume de recursos hídricos do mundo e tem a maior hidrelétrica da Terra, Itaipu.

Para quem vive em Luanda, nada muito dramático. Mas, depois do último blackout, ocorrido em 1999 e de todo o esforço de raciomento de energia que a populção fez em 2001, nunca os brasileiros imaginaram que pudessem ser tão tapeados por esse governo que vive dizendo..."nunca na história desse país".

Realmente, nunca passaram um perrengue tão grande. Digo passaram, porque aqui do meu canto de Brasil a "luz não foi.." como diziam os meninos naquele cantinho da Rey Katyavala.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Falso Lula dá entrevista pra Rádio Nacional de Angola


As rádios nacionais de Angola e Moçambique “entrevistaram” longamente um falso presidente Lula. O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República anunciou que vai “descobrir” os autores do “trote”. São humoristas, responsáveis por um dos novos quadros do programa "Chupim", da rádio "Metropolitana FM", de São Paulo. Os humoristas entraram em contacto com emissoras do Canadá, Austrália e países africanos oferecendo “entrevista exclusiva e ao vivo” com “o presidente brasileiro”, que gostaria de falar sobre a violência no Rio, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. As emissoras mais ouvidas de Angola e Moçambique aceitaram a oferta. Uma emissora canadense preferiu entrar em contacto com assessores de Lula e escapou do trote. Outra emissora, australiana, gravou a entrevista, mas não a levou ao ar.

Comentário do X: (voltando para casa no carro, trânsito parado, aúdio de tambores por minutos sem fim seguidos, segundo o Fellet falta de assunto ou erro de produção, e o locutor: São 13 horas em todo o espaço nacional. De Luanda, transmite a Rádio Nacional de Angola).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Por isso que eu amo Angola e os angolanos

Vista aérea de Luanda, cidade para onde mando um abraço do tamanho do Brasil

Há três dias a minha vida profissional deu uma nova guinada e eu passei a dirigir o conteúdo jornalístico de um canal de televisão, meio de comunicação onde comecei a carreira, no século passado. Comuniquei a mudança por um e-mail a um círculo de amigos, incluindo angolanos, e hoje recebo esse e-mail transcrito abaixo, que fez escorrer uma lágrima solitária, tanto pelo desejo sincero de sucesso como pelo fato de que, há pouco mais de um ano, essa pessoa não tinha sequer conta de e-mail.

Força aí meu camba e sucessos! Estou contigo neste desafio.
Um abração no tamanho de Angola

PS: um abraço do tamanho de Angola é uma imagem poética das mais belas que possa haver, concordam? Mando um do tamanho do Brasil!

sábado, 31 de outubro de 2009

Em directo, flashes de um ano que vai a enterrar


Meia-noite do dia 31 de dezembro de 2008. Pela "ecrã" da TPA, um grupo de mwangolês, tugas, brazukas, sul-africanos e gentes de outras etnias assistem o espocar dos fogos anunciando 2009 na Ilha de Luanda, "em directo". Todos estavam bem longe da cena mostrada na tv, mais exatamente num conjunto de lodges às margens do rio Kwanza.

Foi emblemática essa cena das duas belas apresentadoras na hora do "brinde" (um gesto que em Angola tem um significado dez vezes mais forte do que no Brasil), pois elas saudavam um ano que se anunciava - e comprovou-se - realmente promissor para todos que estavam ali, reunidos.

Daqui a dois meses vai ser reveillón de novo e será "altura" para fazermos, mais uma vez, um balanço do que conquistamos, deixamos para trás ou simplesmente esquecemos de cumprir entre aquelas mil promessas de ano novo que fizemos.

No meu caso - e essa é uma novidade que apresentou-se hoje - nunca essa caixinha de encantar seres humanos chamada "televisão", mostrada na fotografia, foi tão real e emblemática e presente na minha vida profissional, de novo, exatamente 10 anos depois.

Enigmático o post? "Em directo" a vida é muito mais.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Candongueiro também é ótimo fotógrafo

Uma cena baiana: J. estreia-se em grande no mundo da fotografia

No âmbito da realização do concurso fotográfico divulgado abaixo, a Casa de Luanda sente-se orgulhosa em publicar a fotografia de autoria do Candongueiro seleccionada no despique. A bela imagem de 2007 foi registrada em Capão, na Chapada Diamantina, estado da Bahia - uma província de Angola tão legítima como o Huambo, Moxico, Benguela, Namibe...

África entre nós, do lado de cá

Foto: José Carlos da Silva
A Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, por meio de sua Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias, lançou em todo o País a Campanha Fotográfica África em Nós, durante os meses de junho a outubro do ano em curso, convocando a população a mostrar, por intermédio da fotografia, o que ela vê, sente e compreende sobre a presença e a herança africana no nosso dia a dia.

A proposta da campanha foi de um exercício de valorização da nossa grande diversidade cultural, pois esta África em Nós não esta mais sozinha, ela está misturada, transformada e refeita dentro da cultura nacional. Para a seleção das 100 melhores fotos, escolhidas por uma comissão julgadora, foram utilizados critérios como: concordância com o tema definido na campanha; criatividade; originalidade; estética; qualidade fotográfica (técnica); relevância da mensagem de prevenção e qualidade informativa.

As 100 melhores fotos serão publicadas em um livro e vão também integrar uma exposição, dentro da programação cultural do Mês da Consciência Negra, celebrado em novembro.
O Concurso recebeu o espetacular número de 7.320 fotografias, destacando-se para o seleto grupo das 100 fotos pretendidas, a fotografia “Calvário”, de autoria de José Carlos da Silva – Natal/RN.

Informações retiradas do blog do competentíssimo fotógrafo potiguar Canindé Soares.

domingo, 25 de outubro de 2009

Está cada vez mais difícil ser jornalista no mundo


Como a maioria deve saber, boa parte dos moradores desta Casa é jornalista. Ela foi fundada por um dos melhores que conheço e também é muito visitada por essa "malta" que vive de escrever, fotografar, reportar... Por isso, a notícia abaixo nos preocupa bwé: trabalhar com notícias está cada dia mais difícil, seja na civilizada Europa, na sofrida África ou nesse gigante adormecido chamado Brasil. Leia com cuidado os dados, divulgados pela organização Repórteres Sem Fronteiras. No caso do Brasil, a corrupção seria infinitamente maior se não tivéssemos uma imprensa tão vigilante. Cochilou, a gente divulga, é regra por aqui, como vocês podem perceber pelo blog. Mas, onde ainda se trabalha com uma mordaça na boca, nada vai melhorar por muitos longos anos, pode ter certeza.

Pelo segundo ano consecutivo, Portugal desce no ranking dos países que mais respeitam a liberdade de imprensa. Em 2007 desceu 8 pontos, passando do 8o país do mundo onde mais se respeitava a liberdade nos meios de comunicação social para o 16o.

Este ano, segundo análise feita pelos Repórteres sem Fronteiras (RsF), Portugal desce do 16o para o 30o lugar, ficando a par com o Mali e Costa Rica.

No conjunto da Europa, não só Portugal desceu no ranking, mas também, conforme afirma o secretário-geral da RSF, Jean-François Julliard ,«França, Itália e Eslováquia têm vindo a cair sistematicamente de posição no ranking, ano após ano», alertando para que os jornalistas continuam a ser ameaçados fisicamente em países como Itália (49o lugar) e Espanha (44o).

«A Europa deveria dar o exemplo no que respeita às liberdades civis. Como se podem condenar violações de direitos humanos fora de portas, quando não se tem um comportamento irrepreensível em casa?», Julliard, sublinhando que a principal ameaça provém das «novas leis que têm vindo a ser adoptadas».

Relativamente aos países de língua oficial portuguesa referidos no estudo, Cabo Verde está na 44a posição, o Brasil ocupa a 71a, seguido de Timor-Leste, na 72a. Depois surge Moçambique na 82a posição e dez posições abaixo, a Guiné-Bissau.

Angola ocupa o 119o lugar.

Esta tabela faz parte do relatório divulgado anualmente pela organização, elaborado com base em questionários a centenas de jornalistas e especialistas dos meios de comunicação internacionais.

Este ano, o país que lidera o ranking de 175 países analisados é a Dinamarca, enquanto que Cuba, China, Irão, Birmânia, Coreia do Norte e Eritreia estão entre as últimas posições.

sábado, 24 de outubro de 2009

Unidos no fosse entre pobres e ricos


Filho de uma Quinguila e carrão de luxo, lado a lado: choque de realidade

De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), numa escala de 0 a 100, Angola apresenta um índice de desigualdade entre ricos e pobres de 58,6, os mais pobres têm uma taxa de consumo de 0,6 por cento enquanto a dos ricos é de 44,7 por cento.

Logo a seguir a Angola vem o Brasil com um índice de desigualdade de 55 e uma diferença entre as taxas de consumo de pobres e ricos de 41,9 por cento. Os pobres apresentam uma taxa de consumo de 1,1 e os ricos 43 por cento, tendo-se verificado uma subida de dois pontos relativamente a 2008.

Cabo Verde é o terceiro país lusófono com o maior fosse social, com 50,5 pontos no índice de desigualdade. Os mais pobres têm uma taxa de consumo de 1,9 por cento e os mais ricos de 40,6. Já Moçambique, que surge na lista a seguir a Cabo Verde, apresenta-se com uma desigualdade de 47,1, seguido de Timor-Leste e por fim da Guiné-Bissau, sendo este o país que apresenta menor fosso social.

Relativamente a São Tomé e Príncipe, não consta no relatório por não existirem dados disponíveis.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

No Chill Out, o sábado é sempre em grande

Dia desses, lembrei com muitas saudades dos agitos da Ilha, nomeadamente a noite de sábado no Chill Out, quando fecha o restaurante e vira uma discoteca metida à besta, cara até não dizer mais (USD 30 dólares, só para surgir e sorrir) e cujos critérios de seleção para saber quem entra rápido ou fica mofando na fila são mais abstratos do que os utilizados pela Real Academia de Ciências da Noruega para entregar o Nobel a Obama, recentemente.

Se você é homem, branco, e vai lá desacompanhado, fica no mínimo uma hora na fila para entrar. Se chega acompanhado de uma dama – seja ela uma catorzinha angolana ou uma brasileira mais saliente – passa na frente de todos e vai ser feliz imediatamente. No zunzunzun do sereno, carteiradas, sabem com quem está falando, conversas ao pé do ouvido e, claro, flertes, muitos flertes. Casais de angolanos bem nascidos não ficam um segundo à espera.

Lá dentro, um mundo artificial formado pela mistura de mwangolês com expatriados chama atenção. Todos estão no desespero para ver e ser visto, acabar a noite bem, no sentido bíblico, se os leitores inteligentes dessa Casa compreendem. Nuvens de catorzinhas diáfanas sobrevoam tugas horríveis nas suas camisas xadrezes de manga curta. Brasileiros mal-educados, por seu turno, diluem-se em litros de uísque e passam a se sentirem um Rockefeller da vida. Os de Pernambuco são os piores. Os papos geralmente começam em inglês e depois evoluem para a língua de Camões, sempre com a clássica pergunta: “você está em Angola há quanto tempo”?

O tumps-tumps das “mesas misturadoras” é ótimo. DJs evergando camisetas geralmente da grife Dolce & Gabanna fabricada no Dubai ou na China, além de óculos escuros imensos e cintos dourados, fazem às vezes de Jesus Luz - o namorado brasileiro da Madonna que agora meteu-se a Malvado - sem perceberem que nós notamos que tudo tocado ali é playback. Ah, que saudades do Kuduro sampleado ou da última versão de um house tocado no ultimo verão em Ibiza tendo o mar ao pé de si no Chill Out...

A noite avança... O uísque faz efeito...

Numa rodinha, um grupo de curitibanos – chatos como só um carnaval ao lado de uma namorada com TPM pode rivalizar – destilam pérolas como “ah, eu não vejo a hora de ir de férias para o Brasil”. Do lado, uma portuguesa afirma, em alto e bom som: “gostava imenso de conhecer um brasileiro mais a fundo…”. Então tá, vamos nessa. Quando toca o Créu, caem por terra os 500 anos de educação promovidos pela colonização nos dois lados do mar, isso tudo nas tais cinco velocidades.

No final da festa, lá pelas cinco da manhã, jipes imenos enfileira-se à porta, à espera que os grupinhos que se formam na calçada – a hora final é a de maior desespero, pois agora só sábado que vem, por isso ainda dá tempo – decidem se vão todos para o Talatona ou a baladinha pode continuar por ali, pela cidade, nos domínios de quem tem mais privacidade e não precisa dividir 100 metros quadrados com mais seis pessoas.

No final do dia, alguns integrantes dessa peça de teatro que tem lugar todos os sábados no Chill Out encontram-se num dos vários restaurantes da Ilha e, de óculos escuros, nem confiança para os demais.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Na guerra, uns choram. Outros, vendem lenços

A Caras brasileira deu uma capa para o desfile da grife O Bicho Comeu, de propriedade da irmã de Xuxa, Solange Meneguel, em Luanda, há duas semanas. O texto abaixo é o da revista.

Cerca de 50 crianças, a maioria de Angola, participaram do desfile. "Elas são espontâneas e têm uma alegria contagiante. Houve uma identificação imediata com o nosso estilo. Todas adoraram as roupas. E fiquei feliz de poder contribuir de alguma forma para manter o alto-astral delas. São meninas muito vaidosas", contou Solange, que, no mesmo dia, inaugurou uma loja no Belas Shopping, a primeira internacional da Bicho Comeu.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O coqueiro e as luzes do crepúsculo


Um pé de coqueiro solitário verga-se com o próprio peso e com o do tempo numa praia qualquer de Angola. Ele carrega consigo uma solidão tão imensa que confude-se com a própria solidão da história de fluxos e refluxos do país.

No final de cada dia, o sol banha-lhe com cores fulgurantes que aos poucos vão se transformando num carmim-alaranjado e vão deitar-se ao mar, como se dissessem:

-- Ai de ti, coqueiro, sempre preso nessa terra! Vem para cá, pois é do outro lado que ainda há tardes, que ainda há pessoas no banho de mar, que ainda se faz verão...

E o coqueiro, coitado, sempre dono de si e do tempo, olha para as cores e responde:

--Deixa estar, ó cores belas, tu também, daqui a pouco, será escuro.

E faz-se noite na terra das Palancas Negras.

sábado, 17 de outubro de 2009

Há um ano, mais ou menos...na Ilha


...Essas duas figurinhas aterravam em Angola com um único propósito: mostrar para nós como a vida é cheia de som e fúria.

PS: essa foto eu tirei escondido deles, num dia que tentamos ir à praia na Ilha de Luanda e não conseguimos, dado o engarrafamento. Gostava imenso de ofertar-vos agora, um ano depois.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Notícias do triângulo Angola-Brasil-Portugal

A semana (iniciada hoje no Brasil, por causa do feriado) começa farta de notícias que juntam os três vértices do triângulo num só saco de gatos. Confiram (os títulos levam para as reportagens originais):

O publicitário baiano Duda Mendonça abriu uma filial da sua agência em Lisboa e já está causando polêmica. Não faço a menor idéia do que seja esse tal de Pingo Doce (tampouco a matéria do Económico explica), mas os leitores podem nos ajudar? Os tugas precisam dar um desconto ao baiano, o cara é muito bom.


Est ouvert officiellement par le maire de Bordeaux Alain Juppé, le Ministre de la Culture et de la Communication Frédéric Mitterand, et le Commissaire général Didier Faustino. Guidé par le commissaire de LUANDA SMOOTH AND RAVE Fernando Alvim et avec la gouverneure de la ville de Luanda Francisca do Espírito Santo, ils sont passé par le Grand Théâtre pour une visite a notre exposition.
Fotos do evento aqui.

Roberto Leal vira discípulo do Candongueiro
Eu devo ter tomado alguma coisa estragada: nesse momento, na SIC, passa um clip de Roberto Leal cantando com sotaque brasileiro a música "Procurando Tu". O Cenário são as ruas de Lisboa (belíssima à noite) e aquele que por muitos anos foi o grande embaixador de Portugal no Brasil, vejam só, está em busca de...uma linda dama angolana, daquelas de deixar o Candongueiro à beira de uma síncope nervosa. Uma catorzinha de derreter catedrais. A moça insinua-se para o Tuga mais Brasileiro que já existiu em vários sítios: na Torre de Belém, nos Jerónimos, no Chiado, no elevador de Santa Justa...no final... Não encontrei o vídeo no Youtube, mas valapena assistir este.
Na mesma SIC, de instante em instante, dois comerciais ótimos sobre Angola. Um sobre aquele prédio de luxo que está subindo ali próximo ao Miramar e outro sobre as facilidades de se retirar o Bilhete de Identidade. Nem parece que há qualquer burocracia no país. Para matar as saudades do sotaque, como diz o F. Vamos ver se o vídeo cai no youtube.

The New Yorker mostra o lado mais cruel do Rio de Janeiro.
Depois da euforia da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016, banho de água fria da revista The New Yorker com essa reportagem aqui, sobre A Terra das Gangues (Nada a ver com calças de ganga, hein meus amigos?).

Xuxa dança Kuduro em Luanda no Dia da Amizade


Dica da Kianda, nossa amiga na Tuga.
Gostei imenso.

sábado, 10 de outubro de 2009

Feliz dia da Amizade Brasil Angola

Acabo de ver na TV os preparativos para o show da Amizade Brasil-Angola, que deve estar acontecendo exatamente neste momento em que escrevo, no estádio dos Coqueiros, tendo a Xuxa como uma das atrações musicais.
Daqui, do lado de cá, mando todos os abraços e votos de felicidade para esse povo tão querido, tão amigo, tão irmão. Estamos juntos, angolanos!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Aos que pensam em viver em Angola

Tenho recebido muitos comentários de pessoas que cá chegam em busca de informações sobre Angola. Geralmente receberam proposta de emprego e estão nas dúvidas que assaltam a alma em momentos de grandes mudanças. Normal.

O que eu poderia dizer?

Aceite o desafio. Mas só o faça certo de que deixa no Brasil, em Portugal, onde quer que esteja, os medos que tantas dúvidas lhe trazem. Porque mudanças são difíceis, para qualquer lugar do mundo. Nenhum povo é igual a outro; misérias, riquezas, costumes, tudo é diferente.

Mude-se para Angola com o coração aberto para amar o sotaque, as comidas, a inocência escancarada do angolano comum; mude-se para Angola aberto a entender a frieza, a distância, os medos de uma gente que por séculos não teve em quem confiar; entender e aceitar que não se apaga tanta dor de tanta guerra tão facilmente.

Vá disposto a aprender muito, porque Angola tem mais a lhe ensinar do que os diplomas que carrega. Vá pronto a ser mudado, mais do que a mudar.

E enquanto lá estiver, liberte-se de Luanda. Deixe-se perder pelas províncias tão belas e tão puras. Viva Angola intensamente, cada segundo. Porque quando a hora chegar, antes do que você espera, poderá levar na bagagem, em lugar de engarafamentos, preços altos, faltas de água e luz, a alegria das Mumuílas diante da câmera, a lembrança do vento fresco da Serra da Leba no rosto, o deslumbre da luz nas tardes de Luanda.

E partirá, então, cheio de saudades, mas feliz por saber que ajudou a transformar, pelo menos, um Triste em Forte.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Agora os petits-fours, inimigos mortais de qualquer dieta e templos da perdição em dois endereços

O bolo de aniversário da Menina Yara, embaixadora da Banda Calipso: saudades de uma tarde de brindes em grande
A montra escandalosa da Nila, no Zé Pirão: atores de novelas falsos, flertes no fim de tarde e o pecado da gula

Palmieres, rocamboles, pastéis de nata e toda a sorte de gulodices do Três em Um, na rua do Martal:
templo da filosofia dos dias iniciais

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Semana de Gastronomia na Casa de Luanda

Sobremesa divina e das estrelas, preparada por mãos de fadas
Ilha de camarão, pela ocasião do lançamento do JE, numa gala no Tropical
Paella feita pelo G., pela ocasião da despedida de toda a gente

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Petróleo, diamantes e musseques

A agência Habitat, das Nações Unidas, divulgou ontem o relatório "Planejando Cidades Sustentáveis", no qual sustenta que 200 mil pessoas no mundo deixam o campo todos os dias para viver em cidades - que obviamente não estão preparadas para recebê-las. O resultado disso é o crescimento assustador do número de pessoas a viver em moradias precárias - as favelas brasileiras, os musseques angolanos.

Em África estão os cinco países com os maiores percentuais mundiais de habitantes vivendo nessas condições. Serra Leoa, onde 97% da população é favelada, lidera o ranking.

Angola, o segundo maior produtor de petróleo de África, o terceiro maior produtor de diamantes do mundo, ocupa o 4o lugar da lista: 86,5% da população vive em musseques.

Antes que saiam já a criticar o brasileiro, de que só fala mal de Angola e esquece os seu país, coisas que cansei de ler por aqui: no Brasil, 29% da população é favelada. O que não é nenhum alívio, já que em números absolutos dá pouco mais de 55 milhões de pessoas - o equivalente a mais de quatro vezes a população total de Angola.

Agora, em grande, um post sobre alta gastronomia

Salmão ao molho de alcaparras com verduras do Cais de Quatro: chef estrelada

Uma das primeiras brasileiras fora do circuito guest-house que conheci em Luanda foi Caroll Bessa, chef do Cais de Quatro, indicada pelo meu amigo David Braga. Há anos morando em Angola (continuará por lá?), essa paulistana com garfo e faca tatuado no pulso revolucionou a gastronomia local ao utilizar elementos da cozinha fusion nas suas criações e aos domingos mata as saudades dos brazukas com um buffet de comida brasileira - a melhor do mundo, diga-se de passagem. Essa criação bonita aí da foto, "na altura', saiu por míseros USD 100. Com o vinho que tomamos, a contita foi para USD 150. Um parâmetro econômico muito louco.


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na galeria das saudades

Já que o blog anda meio nostálgico esses dias, vou postar duas fotos de Luanda, mas precisamente da Av. dos Combatentes.

Recebi essas fotos por e-mail e não sei quem foi o autor. Caso o mesmo se identifique terei o maior prazer em colocar os créditos.

Como dizem por ai: uma imagem vale mais do que mil palavras, então deixo de lero lero e envio as imagens...


Av. dos Combatentes, meados dos anos 70


A mesma Av. dos Combatentes nos dias de hoje...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Brincadeiras linguísticas


Propaganda da Coca-Cola em Luanda com "Frescura" no lugar de gelado. E o sexo oral, você pratica?

O vídeo postado pelo F. despertou realmente uma saudade imensa do sotaque angolano e me fez parar para pensar nas influências linguísticas que carregaremos para sempre aqui no Brasil depois de viver nessa terra.

Não podemos mais nos encontrar nos MSNs e Google Talks da vida que a Ju já vai dizendo:

-- Xuxis, tás em que altura?

Uma pergunta dessa não faz o menor sentindo para um brasileiro que nunca tenha conversado dois minutos com um português ou com um angolano. Na primeira vez, fica-se "boiando" mesmo, ou melhor, "sem perceber" (outra pérola!). Geralmente a resposta é: "no quarto andar do meu prédio".

Já a Branquela, sai-se sempre com essa, quando comenta-se qualquer coisa sobre ela, "nomeadamente" sobre os seus vestidinhos diáfanos: "Tás a me aldrabar". Meu Deus, como é difícil pronunciar esse verbo! Eu nunca consegui.

"Meter" é outra expressão absurdamente horrorosa, que faz corar o mais hypado dos clubbers da envergadura do Zé Kalango.

Hoje mesmo, li num jornal daqui uma expressão muito recorrente na nossa velha redação da Rey Katyavala: "toda a gente". Fez-me lembrar um episódio hilário, vivido por este datilógrafo num restaurante de Lisboa. Um grupo de seis brasileiros, falando alto como se estivesse em casa, sai-se com essa:

--Vamos todo mundo para a Alfama?

E o garçom, uma criatura bem abusada, certo de que "ao pé de si" estava todo o império português e a cartilha que ensinou o beabá a Eça de Queiroz, deu-nos uma lição:

-- Esses brasileiros são muito "giro" (já me imagino uma carrapeta): seis pessoas numa mesa e tratam-se por "todo mundo"!

Ahahaha. Era para ter dido "toda a gente" mesmo, mas não sabemos fazer isso.

Voltando ao vídeo, a melhor coisa é quando a apresentadora chama os alunos da "Universidade de Dúvidas e Omissões" de Luanda para ajudá-la a reponder sobre esse tema muito "giro":

-- O sexo oral, você pratica? (percebe-se aí a influência totally brasileira, pois não?)

Se depender as propagandas de gasosa e sorvete que vimos por aí... a questão está respondida.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Pra matar a saudades do sotaque...

E também da ingenuidade do humor angolano, publico aqui um vídeo enviado pela querida Kianda. É de um quadro de humor da TPA.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ora, podia ser a bananinha ou o maracujázinho. Mas não, é a moranguinha. E parece que ficou sem roupinha para vestir, em Angola. E diz ela, que vai ao "shopping mais próximo para comprar alguma roupa". Não pude deixar de rir com esta "notícia". A catraia, apesar de viajar pela segunda vez a Angola, vai descobrir que só há unzinho. A sortinha é que, a ver pela indumentária, vai gastar poucos kwanzas. Vai, vai!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pequena galeria de saudades d'Angola

31 de dezembro de 2008, 18h, Barra do Kwanza
Uma canga e um país inteiro do outro lado
Caos e metamorfose, ou vai ser gauche na vida
"Os telhados de Paris" nunca mais serão os mesmos
Na Ilha do Cabo, na primeira reunião de Condomínio
O dia em que comemos tudo o que há de melhor nesse país
Isso sim é cerveja, o resto são secos e molhados
Daria tudo para saber onde foi parar o telhado desse imóvel
Aí pára tudo que eu quero descer...

domingo, 13 de setembro de 2009

Mutamba, Mutamba, vai Mutamba, Mutamba...

Todas as tardes, quando o relógio marcava 17h, olhávamos uns pros outros e dizíamos, imitando a língua do Kota Beleza: "numa altura em que já estamos com fome, gostava imenso de ir à Nilo". E então descíamos os 5 lances de escadas pútridas e fétidas, alcançávamos a Rua Key Katyavala e nos embrenhávamos no meio das candongas, cujos "cobradores", com a bunda de fora sempre gritavam, em alto em bom som, principalmente depois de ver a tatuagem colorida na panturrilha da Branquela de Angola, vestida em vestidinhos diáfanos:

--Mutámba, Mutámba, vai Mutámba, Mutámba...

E aí imitávamos o sotaque, abrindo a vogal "a" até não querer mais. A Ju era a que mais sabia imitar.

-- Mutámba, Mutámba...

Eu nunca soube o que era Mutamba, como não sei o que é Kinaxixe, Ingombotas, Maianga...

Hoje fui no Bosque dos Namorados, aqui em Natal, e me deparei com um restaurante que homenageia o bairro luandense. A dona me explicou que o nome refere-se a uma planta, nomeadamente a Guazuma umifolia, plantada bem ao lado (foto abaixo).

Vocês sabiam disso?

-- Mutamba, Mutamba, vai Mutamba, Mutamba... escuto até hoje os candongueiros dizendo isso...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Diante da dor dos outros - há 9 anos

Jovens americanos fazem pequenique enquanto o WTC pega fogo: Hannah Arendt, Norman Rockweel e um médico paulista em choque pela perda do filho

Terá sido verdadeira essa situação ou não passa de uma montagem? A foto é do alemão Thomas Hoepker, que estava dirigindo seu carro quando a cena chamou sua atenção, na fatídica manhã de 11 de setembro, há exatos 9 anos. Ele levou três anos para publicá-la. Por incrível que pareça, lembra as cenas bucólicas pintadas pelo americano Norman Rockwell.

Volta à memória à pergunta: onde estávamos naquele momento? Eu, na sala de um médico paulista cujo filho estava num dos elevadores do World Trade Center e com quem ele falara há coisa de meia-hora. As torres desabaram com ele dentro.

Um horror estar à frente da dor dos outros, como eu estive, bem diferente da indiferença mostrada nessa foto - se ela for verdadeira.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

pobres dos nossos ricos

A maior desgraça de uma nação pobre
é que em vez de produzir riqueza,
produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.

Na realidade, melhor seria chamá-los
não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente
tem dinheiro. ou que pensa que
tem.
Porque, na realidade, o dinheiro é
que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiados
pobres os nossos “ricos”.
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é
propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.

Não podem, porém, estes nossos endinheirados
usufruir em tranquilidade
de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser
roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam
por lançá-los a eles próprios na
cadeia.

Necessitavam de uma ordem social
em que houvesse poucas razões para
a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças
a essa mesma desordem (...)
MIA COUTO

Para quem deseja passar férias no Brasil

Na imagem, a malha aérea da Tap a partir de Lisboa

Olhaí, para quem, a partir da Tuga, quer conhecer ou voltar a visitar o Brasil até março. TAP com preços "óptimos", pelo menos na vinda! Não, a Casa de Luanda não tem o patrocínio da TAP. O post é só dica de amigo.

TAP faz promoção de voo a 359 euros para o Brasil
Os turistas portugueses poderão voltar intensamente a viajar para o Nordeste brasileiro, destino que está caindo na preferência lusitana. É que uma grande promoção oferecendo tarifas reduzidas para o Brasil está sendo preparada pela TAP. Os voos de Lisboa e Porto para todos os aeroportos brasileiros custarão 359 euros, para a vinda, com todas as taxas incluídas. A campanha é válida para viagens entre 01 de Novembro e 31 de março de 2010, reservadas até 30 de setembro.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E por falar em Baião...

Acabo de ler, de uma enfiada só, neste feriado de 7 de setembro no Brasil (independência? que independência?), a Branco de Quintal, do nosso querido amigo Fernando Baião, também morador desta casa. Crônica afiadíssima do que está a passar neste dias, é leitura obrigatória para todos aqueles que pretendem entender um pouco mais sobre Angola profunda. Não sei se é possível encontrá-lo ainda na Chá de Caxinde, que o editou - este me foi presenteado pelo próprio autor -, mas vale tentar. Para os mais curiosos, vai aqui um trecho, que publico sem a prévia licença do autor, na esperança de que não se aborreça.

"O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado egripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupas de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece."

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O dia em que Maysa cantou em Angola

Uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos chamou-se Maysa. Ela cantou, como ninguém, com sua voz única, a tristeza, os amores mal resolvidos, a "fossa", sentimento do qual ganhou o título de musa. Era uma fadista da época do bolero e nascimento da Bossa Nova. Nada pode ser mais triste - e mais bonito - nesse mundo do que ouvir Maysa cantar Ne me quitte pas, canção que, depois que ela executou no Olympia, em Paris, ninguém nunca mais lembrou que um dia tivesse sido cantada por Jacques Brel.

Pois bem, por esses dias, assisti à minissérie que a TV Globo levou ao ar sobre a cantora "na altura" em que arrumava as malas para deixar Luanda, em janeiro desse ano. Um ano antes, tinha lido a biogafia Maysa, Só Numa Multidão de Amores (Ed. Globo), escrita pelo querido amigo, jornalista cearense Lyra Neto.

Pois não é que Maysa apresentou-se em várias cidades de Angola, em fevereiro de 1969? Eu tinha esquecido esse detalhe, até que a minissérie me reavivou a memória e fiquei imaginando: como terá sido isso?

Contactei o autor do livro e ele me autorizou a publicar o trecho que conta a passagem de Maysa por Luanda e pelo Lobito. Meu Deus!, quão revelador é o trecho, sobre vários aspectos: como a elite angolana se divertia, como os brasileiros nunca sabem mesmo nada de Angola e como a imprensa daquela época noticiou o fato.

Leiam com carinho o trecho abaixo. Para além do estilo delicioso do autor, trata-se de um panorama monumental da Angola de 1969, cinco anos antes de tudo mudar, para sempre. E, como cantava Maysa, talvez sem saber, para os "retornados", "O Meu Mundo Caiu..."

No final daquele ano, ainda em Lisboa, Maysa foi convidada para uma experiência inédita em sua carreira: cantar na África acompanhada do Thilo’s Combo, o grupo musical lusitano que estava fazendo uma revolução musical na terra do fado, agregando elementos do jazz e da Bossa Nova às sonoridades locais. O cachê não era lá grande coisa, mas ela não estava em condições de exigir seu peso em ouro. Durante um mês, de meados de janeiro até a segunda quinzena de fevereiro de 1969, enfrentaria uma maratona de shows em boates, teatros e clubes de Angola. “Em breve, teremos a magnífica cançonetista que o Brasil perdeu”, festejou o jornal angolano O Comércio.

Ao descer do avião da tap em Luanda e ser indagada sobre o que esperava do público africano, foi bem sincera: “Não tenho a mínima idéia. Não conheço a África nem sei muito sobre o seu povo”. A respeito disso, Maysa calculou que ela e os africanos estariam mais ou menos empatados. Eles também não deveriam saber nada sobre aquela cantora brasileira que colocava os pés pela primeira vez no continente. A desconfiança cresceu quando, ainda no aeroporto, precisou explicar a um jornalista do Diário de Luanda que os estilos da Bossa Nova e do iê-iê-iê, dos quais ele ouvira falar vagamente, não tinham nada a ver um com o outro.

Mas o repórter é que estava mal informado. Por força da influência econômica e cultural da metrópole sobre a colônia – Angola só conquistaria a independência de Portugal seis anos depois, em 1975 – os luandenses sabiam, sim, quem era Maysa. Tanto que, duas semanas antes da chegada, ela era capa da revista Notícia, principal publicação do país e que vivia sob a mira da rígida censura angolana. “Maysa vem a Luanda”, dizia a chamada. Lá dentro, uma entrevista feita pela jornalista Edite Soeiro, a primeira mulher a exercer a profissão no país, constantemente convocada para prestar esclarecimentos aos censores, por causa dos textos que escrevia e das calças compridas que teimava em usar.

Edite entrevistou a cantora em Lisboa, quando a turnê em Angola foi confirmada. Sem dúvida, as duas se entenderam bem, pois a conversa rendeu oito páginas da revista. Incentivada pela jornalista, Maysa soltou o verbo: “Canto para botar pra fora o que tenho dentro de mim. Explico: ‘Botar pra fora’ é uma expressão feia, mas que se usa muito lá no Brasil. Tudo bem, posso substituí-la por outra, mais fácil de entender por aqui: vomitar. Canto para vomitar todas as coisas que estão em mim, que me saem pelos olhos, pelos dedos, pela boca”.

Se soubesse da repercussão que teria a turnê no país, em vez de providenciar uma mala extra para guardar recortes de jornal, Maysa teria levado a Angola um contêiner. Depois de cantar com casa cheia no Cine Avis, de Luanda, viajou 740 quilômetros ao sul, por terra, até chegar em Lobito, onde se apresentou em outro cinema apinhado de gente, o Flamingo. O sucesso foi tão grande que os luandenses mandaram-na chamar de volta, agora para atuar em um cine ao ar livre, na periferia da cidade. O N’Gola, que cobrava preços populares, transbordou de gente que queria ver Maysa. “A seu jeito, o público do N’Gola é exigente. Assobia, pateia e grita quando não gosta do que está vendo”, advertiu o jornal O Comércio. “Esperamos que o subúrbio compareça em força neste encontro que o porá frente a frente com um dos expoentes máximos da canção brasileira”.

Maysa gelou. Temeu que se repetissem ali as cenas do Maracanãzinho e se preparou para o pior. Mas foi aplaudida calorosamente. “A assistência entusiasmada obrigou-a a ficar um pouco mais e a aplaudiu de pé, fato inédito naquela casa de espetáculo suburbana”, registrou a revista Noite e Dia, de Luanda. Maysa ficou sensibilizada ao ver que, ao contrário do que ocorria com o público dos festivais no Brasil e das boates de luxo de Copacabana, os freqüentadores do cine N’Gola, mais habituados a assistir a comédias pastelões e filmes baratos de capa-e-espada, faziam um respeitoso silêncio enquanto ela cantava. “Se é verdade que a cidade gostou de Maysa, a cançonetista parece ter-se deixado enamorar pela cidade”, disse o Diário de Luanda na edição de 12 de janeiro de 1969, dia da sua última apresentação no país. “O adeus desta noite poderá significar apenas um até breve. Oxalá assim aconteça”, desejou o jornal.

Contudo, Maysa nunca mais voltaria à África. Não só isso. Até mesmo seus dias de Europa estavam contados. Ela só retornaria a Madri rapidamente, para cobrir os móveis de casa com lençóis brancos. Por obra do acaso, um encontro que tivera em Lisboa, antes da viagem a Angola, seria responsável por mais uma reviravolta em sua vida.


Lyra Neto, in Maysa, Só Numa Multidão de Amores, Ed. Globo, São Paulo, 2007